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Thich Nhat Hanh

O entre-ser e o budismo comprometido

Thich Nhat Hanh

Thich Nhat Hanh é um monge e mestre vietnamita, fundador em 1966 da Ordem do Entre-Ser (tiep hien). Foi um destacado activista pelo fim da guerra no Vietnam, fundou a comunidade de Plum Village e criou a expressão “budismo comprometido” no livro Vietnam: Lotus in a Sea of Fire.

“Entre-ser” (Interbeing) é a tradução de um termo na versão chinesa do Avatamsaka Sutra, texto do Mahāyāna que deu origem à escola Huayan do budismo chinês. Nele surge a imagem do universo como a rede de Indra, que se estende infinitamente em todas as direcções e possui, em cada uma das infinitas intersecções dos seus fios, uma jóia resplandecente. Cada uma destas jóias, multifacetadas e em número infinito, reflecte em cada uma das suas facetas todas as demais jóias e é reflectida em todas elas. Cada jóia simboliza cada fenómeno, animado ou inanimado, o que faz do universo uma trama e um processo de inter-reflexão infinitos, em que tudo interdepende e se interpenetra.

“Entre-ser” (Interbeing) foi a expressão que Thich Nhat Hanh considerou mais adequada para expressar o sentido do vietnamita tiep hien, cujos termos significam respectivamente “estar em contacto com” / ”continuar” e “realizar” / ”fazendo-o aqui e agora”. Segundo ele, aquilo com o qual estamos em contacto é a “realidade”, do “mundo” e da “mente”. “Estar em contacto com a realidade da mente significa estar consciente dos processos da nossa vida interior – sentimentos, percepções, formações mentais – e também redescobrir a nossa mente autêntica”, “a fonte da compreensão e da compaixão” que nos nutre e a todos ao nosso redor. Contactar a “mente autêntica” é conectar-se com os Budas e bodhisattvas, as consciências despertas que mostram “o caminho da compreensão, da paz e da felicidade”. Por sua vez, contactar a “realidade do mundo” significa “estar em contacto com tudo o que está à nossa volta nas esferas animal, vegetal e mineral”. Isso implica “sair da nossa concha e olhar clara e profundamente para as maravilhas da vida – os flocos de neve, o luar, as belas flores – e também para o sofrimento – fome, doença, tortura e opressão”. Daqui resultam a compreensão e a compaixão pelas quais simultaneamente se aprecia as “maravilhas da vida” e se age “com a firme resolução de aliviar o sofrimento”. A mente e o mundo, o interior e o exterior, não estão separados e na verdade é a crença nessa separação que impede a experiência da realidade última: “Se olharmos profundamente para dentro da nossa mente, vemos ao mesmo tempo profundamente o mundo. Se compreendemos o mundo, compreendemos a nossa mente”. A este respeito, Thich Nhat Hanh demarca-se da separação entre teologia vertical e horizontal nalgum cristianismo, segundo o qual a união com Deus primaria sobre a conexão com os humanos, modo de pensar que diz ter um equivalente budista na ideia de que a prática da “Via do Buda” é superior a ajudar os “seres vivos”. Para o nosso autor isto não corresponde ao verdadeiro espírito do ensinamento do Buda, no qual a Budeidade e o despertar não se referem a uma mera “identidade transcendental”, sendo antes “inatos a todo o ser”. O “vertical” e o “horizontal” são assim “um”: penetrando num encontramos o outro.

No que respeita ao segundo sentido da palavra tiep, “continuar”, remete para a ideia de unir duas cordas para fazer uma maior, o que interpreta como o “ampliar e perpetuar o curso de iluminação que foi iniciado e nutrido pelos Budas e bodhisattvas que nos precederam”, processo que Thich Nhat Hanh considera ser da responsabilidade de todos o que assumem a prática da via do Buda.

Quanto a hien, o seu primeiro sentido é “realizar”, o que o autor entende como “não residir ou ser apanhado no mundo de doutrinas e ideias, mas trazer e expressar as nossas compreensões (“insights”) na e para a vida real”. Todavia, “realizar não significa apenas agir”, mas primeiro que tudo autotransformação. É essa autotransformação que nasce do contacto com a “fonte de compreensão e compaixão” e gera uma “harmonia” entre nós, os outros e a natureza, traduzindo-se em “todas as nossas acções” que assim “naturalmente protegerão e melhorarão a vida”. “Realizar” implica desenvolver e ter primeiro em si as qualidades de alegria, felicidade, calma e serenidade que aspiramos a partilhar com os outros, pois “sem uma mente calma e pacífica as nossas acções irão apenas criar mais problemas e destruição no mundo”.

O segundo sentido de hien, como vimos, é “fazendo-o aqui e agora”, pois só “o momento presente é real e disponível”. O fundador de Plum Village recorda que a “paz” e a “libertação” que são o objectivo da prática budista não residem num futuro distante ou pós-morte, sendo pelo contrário algo que se visa “agora mesmo, enquanto estamos vivos e a respirar”. “Os meios e os fins não podem ser separados”, pois, ao contrário da visão comum, as causas e os efeitos são uma só coisa e “os meios são fins em si mesmos”. Compreendendo isto, todas as actividades e práticas devem ser empreendidas com atenção plena e pacificamente, seja a meditação sentada, seja o serviço social, sem expectativa de recompensa futura, mesmo que seja “o nirvana, a Terra Pura, a iluminação ou a Budeidade”: “O segredo do Budismo é estar desperto aqui e agora. Não há caminho para a paz; a paz é o caminho. Não há caminho para a iluminação; a iluminação é o caminho. Não há caminho para a libertação; a libertação é o caminho”.

Consciente de que a via e Dharma do Buda é um processo em aberto, que se deve renovar sem cessar pela extensão da atenção plena e da compaixão ao surgimento de novas causas e formas de sofrimento que não existiam no tempo do Buda Gautama, Thich Nhat Hanh considera que todo o praticante deve hoje ter uma consciência não-violenta das várias formas de opressão social e económica e ser um protector da Terra e de todos os seres vivos, sem discriminar entre animado e inanimado. O mestre vietnamita exorta a um “despertar colectivo” mediante uma “ética global” que liberte os humanos do sonho sonâmbulo de viverem sem consciência do impacto que têm sobre o planeta e a biodiversidade. Tal “ética global”, adequada a uma época de “crise global”, é formulada nos “Cinco Treinos da Atenção Plena”, que promovem o despertar da compreensão e do amor fraternos por uma via não-sectária e universalista, em que todos se possam reconhecer, sem qualquer marca religiosa, étnica ou ideológica. Trata-se do reconhecimento e da abstenção de contribuir para todos os sofrimentos causados 1) pela destruição da vida, humana, animal, vegetal e mineral; 2) pela opressão e exploração da Terra e dos seres vivos, pela injustiça social e pela falta de partilha generosa do tempo, energia e recursos materiais com os necessitados; 3) pela violência e falta de ética sexuais; 4) pela falta de escuta e discurso atentos e compassivos; e 5) pelo consumo desatento e ávido.

Esta ética global tem todavia de se enraizar na transformação profunda do próprio agente ético, chamado a mudar o mundo pela mudança profunda do modo como pensa, fala e (não-)age. Isto só é possível pela experiência do entre-ser, que opera uma mutação radical da percepção de si, convidando a não mais se identificar com os limites do que aparentemente se encerra sob a pele para reconhecer que o verdadeiro corpo de cada indivíduo é vasto como o espaço que tudo engloba, incluindo todos os seres e fenómenos, florestas, rios, mares e montanhas.

Sobre o Autor

 Enquanto existir o espaço, enquanto aí existirem seres, possa eu também permanecer para dissipar todo o seu sofrimento. 

~ Shantideva

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