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MEDITAÇÃO
Em Contexto Familiar

 
Ser pai ou mãe nos dias de hoje é uma tarefa cada vez mais exigente e de enorme responsabilidade. Apesar dessa exigência, o sentimento de preenchimento por parte dos pais por exercerem a parentalidade é a maior ambição que um bom pai ou uma boa mãe podem ter na sua vida.

Mas aquela que pode ser a melhor das intenções também se pode tornar num factor de stress – ser o melhor pai ou a melhor mãe possível. Tomar conta dos filhos e organizar a vida familiar, ao mesmo tempo que se tenta equilibrar isso com o trabalho pode levar a que nos esqueçamos de tomar conta de nós próprios. Se os nossos recursos internos se esgotarem, o resultado pode ser irritação, depressão, fadiga e eventualmente problemas físicos e mentais, que vão interferir com a qualidade com que exercemos a parentalidade.

Por sua vez, os pais são constantemente desafiados pelas mudanças de que os seus filhos são objecto, fruto do desenvolvimento dos mesmos, o que faz com que tenham que se adaptar a essas várias fases da vida dos seus filhos: um bebé que começa a andar, um adolescente que já não cumpre as regras familiares ou um jovem que sai de casa. Este sentimento de responsabilidade não se esgota em nenhuma altura da vida dos filhos, já que os pais sentem sempre que devem cuidar do bem-estar dos seus filhos ao longo dos anos, o que leva a que fiquem stressados e preocupados quando eles têm que enfrentar novos desafios.

Também as alterações na vida familiar, como o divórcio, poderão ser fontes de stress, uma vez que há muitas famílias a viverem com um padrasto/madrasta ou um enteado/enteada. Estas relações podem trazer à tona assuntos como o reconhecimento da autoridade e a lealdade entre esses novos elementos da família, que poderão ser encarados como um factor positivo mas também como um factor stressante para ambos. De outra forma, as famílias monoparentais também poderão ter um risco acrescido de stress por não haver outra pessoa que seja co-responsável pelas tarefas parentais. Os problemas conjugais e os problemas associados à partilha da parentalidade poderão ser outras fontes de stress relacionados com o exercício dessas funções.

Quando estamos sob stress ou outras emoções intensas, as competências parentais podem colapsar e isso acontece com pais de qualquer estrato socioeconómico. A consequência dessa pressão podem ser os gritos, as ameaças e mesmo a agressão física. Os pais podem até sentir-se pior quando isso acontece se tiverem conhecimento de como um bom pai age em situações difíceis.

Surge então a necessidade de treinar os pais a gerir o seu stress e o seu sofrimento, como forma de melhorar o funcionamento da família. Na Parentalidade Consciente, o foco primário de atenção é o stress e o sofrimento dos pais, em vez de se centrar nos problemas comportamentais das crianças. Estes problemas comportamentais podem ser a maior fonte de stress familiar, mas o trabalho é feito sobre o stress daí resultante para os pais. A atenção plena é uma forma de meditação baseada na tradição budista, que requer estar atento ao momento presente, focando-se no que está a acontecer momento a momento e aceitando essa realidade tal qual ela se apresenta. Jon Kabat-Zinn, desenvolveu um programa de redução do stress baseado na atenção plena (Mindfulness-Based Stress Reduction - MBSR), inicialmente concebido para ajudar os seus pacientes a lidarem com a dor crónica, sendo actualmente usado para ajudar as pessoas a lidarem com o stress e com os sintomas de ansiedade. Baseados no trabalho de Kabat-Zinn, surge mais tarde uma intervenção denominada MBCT (Mindfulness-Based Cognitive Therapy), desenvolvida por Zindel Seagal, Mark Williams e John Teasdale, que se destina a pacientes com depressão.

Nas últimas décadas têm surgido uma série de intervenções baseadas na atenção plena, nos mais variados contextos (na saúde, na educação, em empresas, em estabelecimentos prisionais,...) e para as mais variadas finalidades (bem estar pessoal e emocional, distúrbios alimentares, stress pós traumático,...), e que têm sido utilizadas com sucesso no tratamento ou prevenção de problemas relacionados com a gestão do stress. Trazer estas práticas para dentro das famílias, aos pais, aos filhos e à vida familiar é uma das mais recentes aplicações da atenção plena, que se tem denominado de Parentalidade Consciente. Esta temática foi lançada com o livro de Jon Kabat-Zinn e Myla Kabat-Zinn, em 1997, com o título Everyday blessings: The inner work of mindful parenting.

Através da prática da atenção plena, podemos tornar-nos mais conscientes dos nossos pensamentos e das nossas emoções à medida que vão surgindo, como resposta às acções dos nossos filhos. A capacidade de pararmos antes de termos uma das reacções habituais afigura-se como uma possibilidade e a resposta que vamos dar só acontece após considerarmos a várias possibilidades de (re)acção. O desenvolvimento da calma e da aceitação acerca dos comportamentos exibidos pelas crianças, sem tentar impôr o que quer que seja, minimiza a quantidade de energia usada e a resistência perante os acontecimentos.

Embora sejam necessários mais estudos que validem a aplicação da atenção plena em contexto familiar, denominada Parentalidade Consciente, são cada vez mais as evidências da adequação dessas práticas nas famílias, conforme ilustram alguns dos estudos científicos realizados mais recentemente.

Altmaier e Maloney (2007) avaliaram a implementação de um programa de Parentalidade Consciente a dois grupos de pais recentemente divorciados com filhos em idade pré-escolar. Com este programa, pretendeu-se que os pais identificassem as interacções que levavam à desconexão com os seus filhos, como criticar, projectar raiva, humilhar, e depois substituí-las por interacções com intenção de se conectarem com eles, tais como ouvir, demonstrar afecto, responder com calma. Os pais familiarizavam-se com práticas de atenção plena (consciência da respiração, do corpo, meditação) e à medida que iam desenvolvendo essas faculdades, iam-se tornando mais conscientes de como as suas respostas influenciam as interacções com os seus filhos e aprendiam a ser mais intencionais na sua parentalidade, ao escolherem formas de aumentar e manter uma conexão emocional positiva. Os autores recolheram evidências do aumento da atenção plena, após a intervenção. Esta é uma descoberta interessante, na medida em que a atenção plena está diretamente relacionada com uma saúde mental positiva, assim como outras qualidades, imprescindíveis na tarefa parental, como a empatia, o afecto positivo e a auto-estima (Brown & Ryan, 2004).

Coastworth et al. (2010), concluíram que a introdução de práticas de atenção plena em programas parentais empiricamente validados poderão potenciar os efeitos positivos desses programas. Neste estudo, esses efeitos foram verificados em três áreas: as mães aumentaram o uso de técnicas de atenção plena na forma como lidavam com os seus filhos adolescentes; as mães também aumentaram o uso de importantes práticas de gestão do processo educativo dos seus filhos (consistência da disciplina, acompanhamento, regras de comunicação e raciocínio indutivo); a relação mãe-adolescente e as qualidades afectivas foram mais potenciadas com esta intervenção que com a original.

Cohen e Semple (2010), referem que a investigação preliminar aponta que esta intervenção poderá reduzir o stress, potenciar a satisfação parental, diminuir a agressão infantil e incrementar os comportamentos pró-sociais das crianças. Enquanto que uma intervenção direccionada para a prevenção de recaídas depressivas (MBCT) aplicada a pais, poderá ter efeitos positivos na relação entre pais e filhos, na redução dos sintomas nas crianças e na promoção de um desenvolvimento saudável, as intervenções parentais baseadas na atenção plena possuem uma dimensão interpessoal, porque dã particular atenção à relação pais-filhos.

Williams e Wahler (2010), especulam no seu estudo qual a possibilidade da introdução de práticas de atenção plena no contexto familiar, nomeadamente com as mães, poder desenvolver um estilo parental mais assertivo e menos autoritário, o que poderia levar a um menor dispêndio de energia por parte da mãe, ao aceitar os comportamentos exibidos pelo filho sem querer impôr a sua vontade e uma menor resistência por parte do filho, ao aperceber-se da atitude da mãe, demonstrando-se disponível para colaborar. Ao verificar esta situação na prática, isto pode reforçar a vontade da mãe em querer manter esse estilo parental, tendo sempre como base de suporte as práticas de atenção plena.

Bluth e Wahler (2011b), concluíram através do seu estudo que a prática da atenção plena poderá ter potencial para aliviar alguns dos desafios enfrentados por pais de crianças em idade pré-escolar, ao diminuir o esforço que os mesmos têm que empreender para decidir a forma mais efectiva de responder a uma situação stressante originada pelos seus filhos. Os mesmos autores chegaram a esta mesma conclusão com um grupo de 118 voluntárias, mães de adolescentes (Bluth e Wahler, 2011a). Acreditam que uma atitude consciente por parte das mães no dia-a-dia, poderá diminuir o esforço parental e incrementar os comportamentos positivos entre os adolescentes.

Num estudo realizado na Índia, Srivastava, et al. (2011), tinham como objectivo verificar os efeitos do treino parental em casos de pais de crianças entre os 3 e os 6 anos com distúrbios de comportamento, reportados aos pediatras. Após as vinte e quatro sessões de treino parental seguindo a metodologia da Parentalidade Consciente, a diferença média pré e pós intervenção foi considerada significativa no que diz respeito ao total dos comportamentos perturbadores, aos comportamentos hostis/agressivos, aos comportamentos de ansiedade e aos comportamentos de hiperactividade/distracção. Com estes resultados, os autores do estudo consideram que em vez de medicar imediatamente as crianças com este tipo de distúrbios de comportamento, os pais podem receber treino de modo a estarem preparados para entender e alterar os comportamentos dos seus filhos, o que conduzirá também a um melhor estado de saúde.

Geurtzen et al. (2014), estudaram seis dimensões da Parentalidade Consciente: escutar com total atenção, compaixão pela criança, aceitação sem julgamento do funcionamento parental, não reactividade emocional no exercício da parentalidade, consciência das emoções da criança e consciência das suas próprias emoções. Estas seis dimensões foram associadas a sintomas de depressão e ansiedade nos adolescentes, nos referenciais tradicionais de sintomas parentais de depressão e ansiedade. Os autores deste estudo concluíram que os filhos de pais que reportaram níveis mais elevados de aceitação sem julgamento do seu próprio funcionamento como pais, tiveram menos sintomas de depressão e ansiedade. Em futuras investigações e práticas sobre a parentalidade, apontam os autores, deve ter-se em conta os pensamentos dos pais, os seus sentimentos e atitudes no que diz respeito ao papel dos pais no estudo da associação entre a parentalidade e internalização de problemas pelos adolescentes.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

  • Altmaier, E., & Maloney R. (2007). An Initial Evaluation of a Mindful Parenting Program. Journal of Clinical Psychology, Vol. 63(12), 1231–1238, doi: 10.1002/jclp.20395
  • Bluth, K., & Wahler, R. (2011a). Does Effort Matter in Mindful Parenting? Mindfulness, 2:175–178, doi: 10.1007/s12671-011-0056-3.
  • Bluth, K., & Wahler, R. (2011b). Parenting Preschoolers: Can Mindfulness Help? Mindfulness, 2:282–285, doi: 10.1007/s12671-011-0071-4.
  • Brown, K. W., & Ryan, R. M. (2004). Perils and promising in defining and measuring mindfulness: Observations from experience. Clinical Psychology: Science and Practice, 11, 242–248, doi: 10.1093/clipsy/bph078
  • Coastworth, J., Duncan, L., Greenberg, M., & Nix, R. (2010). Changing Parent’s Mindfulness, Child Management Skills and Relationship Quality With Their Youth: Results From a Randomized Pilot Intervention Trial. Journal of Child and Family Studies, 19:203–217, doi: 10.1007/s10826-009-9304-8.
  • Cohen, J., & Semple, R. (2010). Mindful Parenting: A Call for Research. Journal of Child and Family Studies, 19:145–151, doi: 10.1007/s10826-009-9285-7.
  • Geuertzen, N., Scholte, R., Engels, R., Tak, Y., & Zundert, R. (2014). Association Between Mindful Parenting and Adolescents’ Internalizing Problems: Non-judgmental Acceptance of Parenting as Core Element. Journal of Child and Family Studies, doi: 10.1007/s10826-014-9920-9.
  • Srivastava, K., Gupta, A., Talukdar, U., Kalra, B. P., & Lahan, V. (2011). Effect of Parental Training in Managing the Behavioral Problems of Early Childhood. Indian Journal of Pediatrics, 78(8):973–978, doi: 10.1007/s12098-011-0401-5.
  • Williams, K., & Wahler, R. (2010). Are Mindful Parents More Authoritative and Less Authoritarian? An Analysis of Clinic-Referred Mothers. Journal of Child and Family Studies, 19:230–235, doi: 10.1007/s10826-009-9309-3.

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 Enquanto existir o espaço, enquanto aí existirem seres, possa eu também permanecer para dissipar todo o seu sofrimento. 

~ Shantideva

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